Linguística.

transferirSabia que um dia, de noite, poderia perder o “piu”, escrever um ditado gritado por alguém do fundo da sala, escondido por uma manta escura tal linho ou desalinho recôndito da capacidade do olhar. Pede-se o menos possível, um punhado de saúde para nós e para os nossos, um saquinho de mel a adoçar a boca, uma pasta de cartão para guardarmos os segredos em papéis velhos, escritos por desatino e noites mal dormidas. É tão difícil escrever sobre o nosso mundo, quem são estas pessoas desconhecidas, estes pais e filhos, maridos e esposas, avós de longe, tios invisíveis, primos desconhecidos, amigos de sempre e pessoas inertes geralmente capacitadas para não terem qualquer identificação.

Custa-me tanto ser eu, alinhar as palavras mais duras e difíceis, curtidas na pele do dicionário das emoções, esse livro maldito que não separa a vida normal do desejo, do mais simples desejo em ter o que não se tem. Não se pede muito. Não se pede efectivamente muito. Existem frases, prosas, que adorava ter escrito, levadas ao extremo por entidades divinas até à ponta da caneta da esferográfica de um mago, um ser supremo, explicador de como nascem as primeiras folhas verdinhas na primavera, porque cai o orvalho lentamente ou o desmontamento mais complexo do teor de sal da lágrima.

Invento arte. Não me interessa se o é. Nem sei o que é. Finjo permanentemente uma pessoa que não sou, porque vou trabalhar cedo e não me satisfaz. Trabalho cobardemente sem coragem de ser artista e passar fome. Podia ser um palhaço mas isso também seria fingir, viveria do pão seco que me dessem, podia ser engraxador e falava diariamente do mundo, ficaria encardido e com roupas largas, podia ser apenas eu sentado num banco de jardim a ocupar espaço, e nessa altura, seria mais honesto e franco. Poderia, quem sabe, escrever dia e noite, consumindo-me juntamente com a tinta e o papel até me esgotar e não ter mais que dizer.

Os caminhos são de terra e pedras pequenas, todas inertes e fora do sítio para o qual nasceram. Esse caminho é um trilho consumido como uma barra de chocolate, meio doce, meio amargo quando fica escuro. Não tarda, serei pai outra vez. Um livro mais a ser criado, folha atrás de folha. Os livros são os meus filhos, saem de mim, quando me transformo em pai e mãe. Não é bonito fazer-se esta comparação, mas é justa, pois por cada criança perfeita que nasce, eu simplesmente compenso a natureza com livros sempre imperfeitos, rudes.

Trazido em sacos de pano, depositei o meu na entrada. Peguei-lhe até sem cuidado, tratando-o como não merece, chamei-lhe coisa, serve para a função que nasceu, nem sempre certo, nem todo incerto. Ali poisado, é mais um pisa papeis que outra coisa. Um objecto posto de lado, algo de mim para ali, ninguém o vê mas também não faz mal pois sou feliz assim. Será para sempre um pisa-papéis…

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