Ufff….

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Volvidos cem anos, ninguém terá mais do que nada para recordar. Talvez umas quantas fotografias e álbuns perdidos em estantes castanhas e gastas, uns velhos em cadeiras de balanço lembram as famílias unas e numerosas, um passado distante totalmente diferente de si próprio. Numa semana difícil para uma cultura estabelecida em costumes tradicionais e religiosos, perdi mais do que contava, vi passar por mim ilustres conhecidos e desaparecer um desconhecido rapaz. Preparações à parte e outras questões de carácter idealista, li sobre os caixões que também podem ser quentes, os casos ambíguos respeitam a ideia pré-concebida do que será o “correto”, falando do socialmente aceite pois claro. Alguém se esqueceu de me avisar sobre a dureza da vida, da rigidez da pedra da calçada e dos socos no estômago. Que soco! Uma mão de pedra, cheia, potente como a água que se solta do mais alto penhasco para cair redonda na minha testa. Várias horas passei em branco, julgando os passos de um homem só no meio da escuridão mais negra, mais madrasta, mais dolorosa que ferros ardentes e descompensados, irrequietos em brasas saltitantes. Nada será mais o mesmo. Nem a mesma voz. Aquela voz que se findou. Calada. Muda. Sem cordas vocais que a suportem. Nem ritmo, nem traços de rugas a reboque, com sorrisos completamente grátis e distribuídos por aí como pétalas jogadas ao ar. Nem tudo foram sortes. Nem tudo era mel e doce. Nem tudo seria mais ou demais, apenas um sabor agri doce devidamente doseado pelo afastamento necessário e prudente. Nada resta. E agora, tal tempestade que varreu, partiu, destruiu o resto que não era pouco mas o suficiente? Daqui a nada a minha noite será sempre mais bela que muitos dos dias de muitos, olharei ao som de Coltrane o copo raso de whisky, e pensarei que tive sempre mais do que merecia, cultivei por mim e por outros, e puxarei de um saco preto, mas preto o suficiente, recordações de mil cores, qual arco-iris das cinzas renascido, flor de lótus da lama…

Ao pequeno 10, simpático irreverente, assombrado por mil fantasmas, que sucumbiu à saudade e ao amor…

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