Por um parágrafo de ti.

Unknown.jpegComo permitir que entre os caminhos se tinjam ideias abstratas dos dias inertes? Permitiu-se a ideia dos homens secos, aqueles cobardes que se juntam para amealhar dinheiro, dinheiro, dinheiro. Eu sou cobarde. Não o seria se fosse capaz de perceber que o ciclo em breve ficará completo. Os meus avós partiram. Os meus pais irão partir. E eu irei partir. Os meus filhos também. Nada restará, a não ser memórias escritas dos tempos felizes. Os erros acumulados foram pagos a um preço irrelisticamente caro demais. Perdeu-se num ralo, milhões de ideias tão gloriosas quanto capazes de movimentar o mundo, de mudar vidas, de lançar ao mar o sal suficiente para nos manter à tona e poder gritar a plenos pulmões “TERRA À VISTA!”. Se o tivéssemos feito, provavelmente o mundo seria nosso. Seriamos capazes de perdoar sem rancor, rir sem nos determos, pensar que o tempo não nos controla, as regras existem para serem quebradas, e cada beijo, cada abraço, cada carinho seria uma realidade constante, um passo em frente, em frente! Seriamos mais, porque não teríamos medo de dar mundos ao mundo, voz a outros, lançar sangue do nosso sangue pois saberíamos que tudo compensaria e valeria a pena. Irreal. Já não conheço algumas pessoas. Triste. Muito triste, que os meus amigos, aqueles grande amigos, não passam de balões vazios cheios de nada. Alguns safam-se. São dos hirtos. Poucos. Triste. Sinto-me culpado por saber que poderia ter feito algo mais. Algo que fosse mais, se lhes dissesse que tudo faz sentido quando podemos regulamente rir e chorar ao lado dos nossos. Tenho pena pela vida ser uma bala que percorre um caminho tão veloz que nem nos apercebemos de nada. Apenas nos apercebemos que caímos de costas na nossa própria cova.

Não sou capaz de mais. Não percebo nada do lindo e brilhante planeta. Em breve nada restará. Nem um parágrafo de ti. Nada. Serás um ponto final tão minúsculo que caberás na palma da mão de um camaleão, e de certeza que ele te deixará cair do cimo de uma árvore, de onde voarás ao sabor do vento quente e abafado de verão para voltares a percorrer às cambalhotas todo o planeta. Mas não serás mais que um ponto final. Foste um parágrafo na minha vida, tiveste tudo na mão para perpetuar o movimento, a engrenagem da vida que permite mais, mais, mais. Tiveste tudo. E agora és apenas um ponto final na mão de um camaleão.

Um dia, um avô, aproveitou para dizer na noite de Natal, tudo o que a vida lhe deu. Uma boa terra para cultivar, animais irmãos como o grande serra cão, um valente amigo, outros animais que cumpriram a sua missão para alimentarem toda uma geração de familiares, ervilhas, couve, grão, os vizinhos aprumaram-lhe o telhado, colheram as batatas, emprestaram a cal, e de um galho antigo, fez o seu cajado. Cajado esse que o mantém, que o ergue e permite que possa olhar para todos em seu redor de uma forma altiva e justa. Filhos, netos e bisnetos. Todos o escutam em silêncio. Sem piu. “Meus queridos, do cimo deste monte trabalhei muito para vos deixar o mais importante… todo o mundo!” Sem hesitar, começou a discursar a magia da vida, os porquês, as dúvidas todas destruídas pelos exemplos, os motivos, as questões respondidas por perguntas e respostas dadas a respostas de perguntas, tudo se encadeava como um castelo, “E é por isso que vos amo com todo o orgulho…” As crianças mais novas escutavam atentas, os filhos do avô tinham lágrimas nos olhos a crepitar, os netos percebiam finalmente toda a mecânica que os tinha trazido até ali. Seria o último discurso. Mas a diferença é que aquele homem pôde escolher a sua cova, o seu lugar, sem se arrepender do percurso que criou, mandou no tempo, mandou no céu e no mar, e ordenou que a vida fosse apenas o primeiro parágrafo da sua própria história…

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