Longa viagem.

animais-em-preto-e-branco-elefante-bebendo.jpgPenoso é o tempo que leva a percorrer o alto Olimpo das carregadas paisagens amparadas na ilusão da mente. Quantos minutos são precisos de cada vez? O telefone tocou mais alto do que o costume, qual efeito mola a fazer-me saltar da cama. Baralhada, tentei situar-me, perceber o lado de cima e o de baixo, as almofadas revoltadas, a luz do candeeiro da rua descrevia o reino da lua que ainda estava no alto do céu.

– Estou?

– Sim… lamento… partiu…

– Obrigada…

Em segundos, as recordações dispararam em ritmo alucinante. As brincadeiras na praia, as eternas noites de dança, as conversas cúmplices tão cheias de confissões, um ombro e um abraço tão quente, as rugas nos olhos sorridentes, a voz que ecoa em todo o lado, ainda parece tão presente, tão aqui. Nem em cem anos poderei esquecer o cheiro do seu perfume, do caminhar desconcertado, dos pequenos detalhes do jeito das mãos, dos gestos, de tudo e de nada. Até a voz ao telefone. O que farei com as suas fotos? O seu número que nunca mais será atendido? Os risos?

Sentada na cama, não tinha lágrimas. Apenas peso. Uma confusão mental estava na origem do arrastar do meu próprio corpo para o tecto, depois a voar janela fora e a transportar-me para todos os caminhos que tenhamos feito juntos. No relógio do quarto batiam os segundos. Pareciam eternos. Pareciam para sempre. Eram meus. Meus e dele. Quem os teria roubado? Quem ousou? Com que poder? Eu conhecia as minhas mãos, como elas se costumavam mover a acariciar o seu pescoço. E as dele também. Julgo mesmo, que estão aqui à minha volta. Eu deixei-as aqui ontem e nos outros dias todos. Ele deixou-as aqui à minha volta. Adormeci com elas. Juro.

Sei do caminho. Sei que esta noite não terminará na ilusão dos dias em que o sol nasce  pois apenas haverá lua em mim. Sim, aquela luz recortada ao entrar pelos buraquinhos da janela do quarto são sempre assim. Luzes estranhas, pequenas e da mesma cor do escuro. No meu passo lento, entra um filme que se repete constantemente com flashes ora de risos, ora de praia, ora de danças (com luzes de cores), ora de risos e proximidade da minha cara com a dele, o cheiro do pescoço, eu esticada para tentar chegar lhe mais alto, ele a pegar-me ao colo. Apenas o cheiro. Ainda na almofada. Apenas isso. Nada mais. E cada vez que existe algo parecido com lucidez, sei que o caminho é longo no meu passo curto…

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